quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Julgar é Bíblico ou não?

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Alguém postou no facebook que julgar é bíblico através de uma foto com os seguintes textos: 1 Coríntios 11. 19; Efésios 5. 11; 1 Coríntios 5. 12; 1 Reis 3. 9; João 7. 24; Levítico 5. 1, destacando as seguintes sentenças, “Decore: julgar é bíblico” e finalizando, “compartilhe com o seu pastor”.

É claro que não concordo com o que a postagem quer indicar, ou insinuar. Mas, antes de mostrar a postura cristã a respeito de julgamento, quero analisar os textos apresentados:
1 Coríntios 11. 19 - “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós.”
Não há o que se comentar neste texto, pois a palavra julgar, ou julgamento não aparece neste texto, Paulo apenas ressalta que o errado aponta o certo, pela divergência, como que pelo contraste, não me aprofundarei nisto pois não é o objetivo, aliás a inserção deste texto, dentro do propósito da postagem foi totalmente sem propósito (é claro que a maioria não lê os textos, apenas as poucas indutivas palavras da foto).
Efésios 5. 11 - “E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as.”
Mais um texto equivocado, aqui Paulo fala das obras da carne em contraposição ao fruto do Espírito (ver Gálatas 5. 17-23). Aqui as obras da carne devem ser reprovadas (conforme o original em grego), ver também Mateus 23. 2.
1 Coríntios 5. 12 - “Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro?”
Como ler este texto sem o contexto? Neste capítulo Paulo orienta a igreja a não ser concorde com o pecador dentro da igreja, não ensina uma postura de julgamento, mas de não-tolerância com o pecado, o versículo 13 trás luz ao assunto: “Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo”. Quem julga os que estão de fora? Exclusão não é julgamento, é disciplina, o julgamento cabe a Deus.
1 Reis 3. 9 – Não entrarei em pormenores por ser um texto do Velho Testamento, não que não tenha validade, mas que se colocado fora do contexto do Nova Dispensação pode ser mal interpretado, mas cabe ressaltar que é a oração de um Rei (Salomão) no início do reinado que pede a Deus capacidade de conduzir (julgar) o Seu povo.
João 7. 24 - “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.”
Mais um texto fora de contexto, Jesus aqui repreende os Fariseus, escribas e doutores da Lei que buscam ocasião para condená-lo, Ver Mateus 23.
Levítico 5. 1 – Sem pormenores, apenas o óbvio, não se compactua com o pecado, nem por omissão, ver Tiago 4. 17.
Afinal! Podemos ou não julgar?
Claro que poderia fechar esta postagem com as Palavras de Cristo em Mateus 7. 1ss, “Não julgueis para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados(...)”, ou ainda com as de Paulo em Romanos 2. 1, “Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo que julgas a outro, pois tu, que julgas fazes o mesmo”(ver versículos seguintes). Estes textos nos mostram que não devemos julgar as pessoas, pois também somos condenáveis, pois somos pecadores e julgar desta forma é pura hipocrisia. Parece ser este o princípio fundamental ensinado por Jesus e que deve ser aprendido e praticado pela igreja.
Decerto que há sim, como gosto de dizer, permissão para se julgar, mas a quem? A si mesmo, veja 1 Coríntios 11. 28 - “Examine-se pois o homem a si mesmo(...)”, e ainda o versículo 31, “Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados”. Creio ser assim, quando formos tentados a julgar o comportamento de alguém, de forma a nos acharmos mais santos, ou superiores, devemos olhar no espelho e olhar para nós mesmos, assim podemos, depois de “tirar a trave do olho”, ajudar aquele que anda em trevas, e apontarmos a luz.
Sendo assim podemos entender que deve haver apenas um tipo de julgamento, a disciplina exercida na igreja (1 Coríntios 5 e 6), exercida no dom maior, o Amor (1 Coríntios 13), lembrando que somos alvos da misericórdia e da Graça de Cristo, podemos ser os disciplinadores ou os disciplinados,(Mateus 5. 23-25 e 18. 15-17).
Finalizo dizendo que julgaremos (verbo no futuro) o mundo e os anjos (1 Coríntios 6. 2-3), portanto exerçamos, mais que julgamento, a misericórdia e o perdão, pois se assim podemos fazer é que compreendemos que somos miseráveis alcançados pela misericórdia e o favor Divino, mesmo sem merecer nada que possa vir de um Deus tão justo, ainda assim nos amou, sem mérito nosso, de forma tão intensa, que deu a Sua vida para nos salvar.

Pastor Tito Mendes